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Eu escrevo pelo ar que eu não tenho
e pelas bocas mudas que não sei contar. Pelo clima que dissecou meu corpo. Pela tua apatia, nua e crua, assim como tua omissão em relação à não-ser. Escrevo pelas mãos que fenecem e pelo peito estorvado que não sabe da dor. Eu escrevo pela dor. Pela dor de não saber. Pela dor de não ter. Pela dor de amar o desamável. Pelas saudades engolidas e ingeridas como forma de paz. Por que eu escrevo? Porque, as perguntas, em si, não importam: importa a solidão que fica menos árdua quando se tem as palavras, o abraço como forma de proteção, e a voz, uníssona, ecoa a morte que expeliu em mim, de mim. Eu escrevo por me negarem amor, por esquecerem que estou aqui, no agora, no hoje, por me negarem os braços, e o calor, e a vida, a vida… porque a vida é o desconhecido sob o conhecido que tento conhecer mas que não conheço. Escrevo para não chorar, para que eu não grite e, realmente, se eu pudesse gritar, assim eu faria. Eu gritaria bem alto, bem forte, como um tapa/soco/chute: eu quero paz. Eu escrevo pelos caminhos por onde não caminhei. Pelo amor que não veio. Pela tristeza de ser, do ser, do ser eu, meu, e, às vezes, teu. Escrevo por gostar da imensidão do céu e ver, no abismo, uma flor, inexata, assim como meus pés que não vão, não sentem, não tocam. Eu escrevo pelo toque que não recebo de ti, e pelo frio que congela, e pelas multidões que se igualam e se matam. Eu escrevo senão morro. E morrer não, não assim, sem glória. Eu escrevo para dizer as verdades que há em mim, e para não sufocar a ideia de amor que criei como álibi para momentos de diáspora. Eu escrevo porque só tenho a mim, e porque o “mim” é o maior que pode ser. Eu escrevo porque encontro em mim, mesmo que em buracos/frangalhos/cacos, as palavras, o sentimento, a emoção. (por que ele escreve)"
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Floresinexatas
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