absurditates
Porque desde nova eu sou antiga. Rayná, 19 anos, saxofonista/musicista.
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"Agora, surge a saudade. O meu momento do dia onde ele vira nosso, unido por ela: a saudade. Deixo o café da manhã me esperando na mesa e venho lembrar - novamente, repare - de como os meus sonhos empobreceram desde que se tornaram solitários. Você dizia que nem era tanto assim para mim, era um “quase nada”, não se via provocando grandes mudanças em mim. Pois lhe digo, meu bem, que o “quase nada” hoje é “quase tudo”. No vazio do espaço que você ocupa, aguento mais esta manhã sem você, isso porque ainda nem falei do resto do dia. Mas há de ser numa dessas manhãs que voltaremos a sonhar em conjunto. E será em algum noite que está por vir, que a vida lembrará que tudo o que é nosso, não precisa de outros lares. Saudade já pode ir; você já pode voltar."
— Camila Costa. - trechos de nós. 
"Veja só, é melhor que nem me perguntem de você. Eu coloco força demais nas palavras, você demais, eu e você demais, tudo em exagero. Não sei controlar nada disso, já entreguei minha carta de desistência à vida, inclusive. “Você o conhece?”. Eu o sei por cada pedacinho. “Você tem visto ele?”. Eu fecho os olhos e já o vejo. “Você já o conhecia?”. Desde sempre. “Você sabe se ele vem?”. Ele está sempre vindo. “Você, afinal, é o quê?”. O que ele me pede para ser. Não posso, não posso responder sobre você! Minhas fraquezas logo se expõe, meu amor transborda e eu fico quase como uma pedante. Isso que eles nem perguntam das noites em claro. Desculpe-me… Quando o assunto é você, tudo me atropela."
— Camila Costa. - trechos de nós. 
"Olhei para o casal sentado à mesa esperando o jantar enquanto eu apenas esperava levar o meu para casa. Talvez fosse eu e você em algum outro tempo, talvez nunca seja novamente, mas eles eram menos do que nós, eu pude sentir. Eles não sorriam. Ele falava olhando para os lados e ela olhava o celular a todo momento. Se fôssemos nós, você estaria me olhando fundo e eu estaria contando algo estabanado do meu dia. Estaríamos juntos. Eles não, eles estavam apenas um com o outro. E pode ser que o amor que não se tem valha mais do que aquele que sai para jantar."
— Camila Costa. - trechos de nós. 
"Semana passada estive assistindo um casamento. Eu sei, eu sei, sempre disse que não sou adepta a casamentos. Fiquei ali no meu banco olhando de longe e tentando entender aquele casal tão sorridente, tão festivo, tão… um do outro. Entendi algumas coisas. Você quer saber? Ah, eu sei que quer sim. Meu amor, eu entendi que eles não estavam se tornando casados por causa de uma benção recebida, um papel assinado ou alianças trocadas. Eles estavam casando pelo olhar que surgiu no rosto dele quando ela adentrou a Igreja. Estavam casando pela lágrima de felicidade e nervosismo que caía pelo rosto dela ao corresponder o olhar dele. Estavam casando pela forma carinhosa como ele pegou a mão dela no altar. Estavam casando pelo beijo na testa, pela confidência no sorriso, pelo tamanho do amor. Estavam casados há muito mais tempo do que se pode imaginar. Se duvidar, estão casados desde outras vidas. Sigo assim, meu amor, dissidente de casamentos, porém, agora acredito em outro casamento, naquele verdadeiro, que não precisa de um altar, de uma festa ou alianças. Aquele nosso, dos olhares, das palavras, dos silêncios, das uniões além do que se pode ver. Ao fim de tudo isso, quero lhe dizer que estamos casados há muito tempo também. Embora não saiba até quando você aguentará metade dos meus dramas, das minhas bagunças na vida, das minhas necessidades de sumiço e dessas minhas palavras muito escondidas de você, somos marido e mulher. Amém!"
— Camila Costa. - trechos de nós. 
"Você me olha de um lado, olha de outro, o que será que você vê? Afinal, gosta disso? De me ver… Você gosta? A sensação de alguém me observando sempre fora desagradável, talvez eu tenha complexos demais, mas você me tira essas coisas, esses estranhamentos da vida: você me tranquiliza para depois me enlouquecer. Como um remédio, você substitui qualquer Prozac que os médicos me recomendem. O meu estômago não respira mais, e não, não ache estranho eu dizer que ele precisa respirar: é óbvio que ele precisa. Mas você o invade com coisas demais e o coitado vomita, coloca para fora enquanto os meus olhos te miram baixinhos pedindo atenção… E você me olha. Eu nos bebi demais, ingeri demais o meu “remédio”. Você veio em doses erradas ou eu que não tenho resistência para tanto. Certa vez eu disse que precisamos ter estômago para o amor, lembra? O meu está todo para fora, deixo agora que me levem à sala de cirurgia. E lá na porta, você está a me olhar. Surpresa: abriram o coração ao invés do estômago. Eu mal sei admitir que é no coração que você mora.
A propósito: nunca achei olhos da cor dos seus."
— Camila Costa. - trechos de nós. 
"Nunca havia reparado tanto no seu nome e agora ele surge de muitos lados. Mesmo havendo muitos iguais ao seu, nunca leio da mesma forma. Com você é mais doce, a minha voz fica mais lenta, derretida, querendo aproveitar cada letrinha do que te forma… Eu não sei como essas coisas acontecem, mas elas acontecem, não é? Você estava por aí, eu também e pronto: aconteceu. A vida finge que vai nos abandonar e traz alguém assim, com a alma sorridente e sombria como você só para combinar bem comigo e me fazer entender que as pessoas podem ter o nome que for, apenas você tem o seu desse jeito que eu desejo tanto. Não há possibilidade de me enganar ou fingir, eu me vejo em você, com você. Eu, que nunca aguentei nem o espelho, te enxergo demais nos meus dias e manias. Se não for agora, amanhã, quem sabe… Se não for nunca, ao menos me envie um beijo com a sua assinatura para eu saber que foi você sem chance de cópias. Mas acredito que não há cópia para ti nesse mundo, nem em mundo algum. Vou tentar te responder sem exceder o drama ou te assustar, tentando mais ainda manter você por perto, sob os meus olhos, sentindo como eu sinto.
Não é você naquela parede rabiscada. Não é você naquela assinatura feia do papel. Eu sempre saberei quando é você. Eu vejo as suas marcas em mim. Algum dia você vai entender que escrevi muito por você, com ou sem nome."
— Camila Costa. - trechos de nós. 
"Espere ao menos eu te contar algumas coisas, depois você pode ir. Pode ficar também, se quiser, mas espere, por favor, espere eu dizer que afasto todo mundo fácil demais e sumo, sumo muito. Metade de mim nunca quer ser de nada e a outra metade vive procurando um canto para se aquietar. Eu tenho problemas com isso como se pode perceber. Havia alguém até uns dias atrás, talvez ainda haja, mas você não sabe o quanto me falta vontade para isso tudo… É desgastante demais procurar um abraço específico em outros, em tantos soltos pelo mundo sendo que eu, eu pedi apenas um. Acabo me desencontrando e ninguém consegue me encontrar - lá vou eu sumindo outra vez. Como custa me ganharem, meu Deus! E olha que nem exijo muito, mas não dá, eu não consigo sair pertencendo porque todas as mãos parecem iguais. A sua mão me sorriu, não deveria, mas sorriu. Há muitas coisas que quero poder dizer a você de um jeito suave, mas para não te assustar, por enquanto é isso. Não posso deixar que as palavras me denunciem em demasia. Eu vou fingindo que sou calmaria para ver se você vem um pouco mais e me perdoe se um dia a minha intensidade te engolir. Você sempre terá as portas abertas."
— Camila Costa. - trechos de nós
"Eu torci por nós. Você eu não sei se torcia por nós, pelo Inter, pelo Flamengo ou pelo Barcelona, mas deveria ser por algum desses. Peço que não me olhe desse jeito estranhamente vazio e necessitado: não me olhe como se eu fosse a solução. Eu era toda a nossa torcida e você não via. Ando agora por esses cômodos cheios de pegadas nossas e descubro por que nunca fui líder de torcida ou qualquer coisa americanizada: eu não sirvo para ver o jogo andar sem mim. Precisei sempre entrar em campo, mas nunca soube as suas táticas, nunca soube desmontar a minha defesa e acabamos sempre no empate - ou embate, como queira. Ah, lá vem você abrindo a porta… Vai escutar as minhas lamúrias outra vez e tentar me explicar que somos dois maltratados pelo amor com o coração latente demais. Você acha que não sei? Meu amor, não é pelo passado: eu te olho e já sei o quanto sofri."
— Camila Costa. - trechos de nós.
"A gente é muito emoção. Eu choro todas as noites e você aparece cabisbaixo em festas sem admitir tristeza. Intensos e sofridos, não sei como acabamos por nos juntar. Na primeira vez que você me sorriu, achei tudo muito alegre, mas o seu mundo provou que é bem igual ao meu. Não posso te deixar partir, entretanto, você é quem precisa vir até mim. Porque sou de ferro, sou sem jeito, sou mais palavras escritas do que faladas, e você não lerá nada disso. Então, tome a decência de bater na porta e me culpar pelas nossas falhas. Tome coragem de me tomar pela mão e dizer o quão insuportável é a minha mania de reclusão, tal como a sua. Tome vergonha na cara, o amor é feito de vergonhas na cara para saber dizer: a desgraça que sou é menos feia com você. E eu sou! Você é… Nós somos. Prefiro o nosso par do que a nossa solidão fazendo estragos.
Se você não me ama, por que os seus olhos sempre me sorriam? E não negue: sei que somos os dois muito tristes."
— Camila Costa. - trechos de nós. 
"Já sorri te olhando de mil formas e me aconchegando no teu abraço ao fim do dia. Era o que eu precisava: abrigo. Era o que você tinha. E tudo sempre veio acompanhado dos meus pelos arrepiados, do meu coração batendo forte e da minha distração quando você falava muito. Foi assim que eu soube o quanto isso era forte. Aliás, o quanto isso é forte. Talvez você mude - de país e de jeito. Talvez a minha loucura te afaste. Talvez nos afastemos ao natural. Mas entre todos esses “talvez”, pode ser também que talvez tudo dure, perdure. Talvez a gente se ame mais do que os olhos andam dizendo."
— Camila Costa. - trechos de nós. 
"Se não tivéssemos intenções, não estaríamos aqui. Eu não teria escolhido o vestido que você sempre elogiou e um perfume novo para te surpreender. Você não teria comprado esse sapato novo com jeito de homem maduro e nem teria feito a barba como eu gosto. Eu não teria desmarcado aquela janta com as amigas e você não teria saído mais cedo do trabalho como disse que sairia. Eu não teria dirigido o meu carro até aqui. Você não teria escolhido o restaurante da última vez. Os gestos e comportamentos são significativos, meu bem. Uma janta, que poderia ser apenas um combinado de sopas, carnes ou massas, não é apenas uma janta. São intenções. As minhas - femininas em excesso, assumo - são sempre esperançosas, mas tentando descobrir que outra mulher te ajudou a fazer compras e que outras jantas você andou pagando. As suas, encobertas por esse olhar que me desnuda desde a primeira vez, são de quem tenta saber porque eu sempre estive sorrindo todas as vezes nesses meses todos que nos encontramos nas ruas dessa cidade, que mais parecia um cemitério no nosso silêncio. Você não sabe que eu sorria para guardar a raiva e o choro do amor para mais tarde. Eu não sei, ou sei e finjo que não sei, que você pediu para sua irmã lhe ajudar com as últimas compras. Nós não sabemos que as intenções sempre foram iguais e escondidas. Se não tivéssemos intenções de dois adolescentes desvirtuados pelo passado que nunca soube morrer, esse texto, meu bem, não passaria da terceira linha."
— Camila Costa. - trechos de nós. 
"

Olha, eu queria apenas contar que eu não te amo. Quer dizer, a gente tem que ter coragem para contar uma coisa dessas, não é? Então, estou te contando. Fui me “tratando” aos poucos e me fazendo não amar você. Não, não ri porque nunca falei tão sério: eu me tratei. Não era doença, mas é sempre bom prevenir essas coisas que chegam sorrateiramente e quando vemos, puft!, já nos atropelou. Eu não queria ir parar embaixo de um caminhão cheio de você e de coisas românticas que eu nunca iria conseguir alcançar. Mal comecei a escrever e você pode perceber que uso muito o “sempre” e o “nunca”, mas faz parte do meu tratamento, estou tentando radicalizar o meu não amar você para não ter chances de dar errado. Anulo qualquer possibilidade de futuro e me alimento apenas dessa realidade fria que conto agora.
O seu sorriso misterioso, esqueci. Não quero saber o seu segredo, sinto que não deve nem ser nada, você não tem a graça que eu pensava que tinha. Os filhos com os seus olhos? Bobagem, eu nem gosto de crianças! A cozinha espaçosa para juntar a família inteira e inventar mil receitas sujando nossas roupas? Ah, eu prefiro almoçar fora e não ter trabalho. As viagens pelo litoral brasileiro? Odeio praia. Os filmes que iríamos assistir fugidos dos problemas do mundo somente nós dois? Eu durmo em todos que vejo. Você? Você não é nada, foi passageiro, hóspede temporário, ilusão, loucura da minha cabeça que necessita sempre idealizar um amor a mais para suportar esta semana e a próxima e todos os outros dias. É mania minha de não saber viver comigo.
Vê como não te amo? Sonhei e muito com você, conjuntamente, não nego. Mas passou, não passou? Estou agora segura de mim, das minhas certezas - repito isso todos os dias ao acordar, faz parte do tratamento. Estou seguindo em frente e marquei até um jantar para o fim de semana. Acho que as coisas precisam andar novamente, o calendário está passando e, na bem da verdade, eu não amo você.
Não considere estranha a minha confissão. Parte do meu tratamento de você exige uma coisa fundamental: que você diga que também não me ama. Porque se você me amar eu lembro logo do caminhão… E sem saber, eu paro logo embaixo dele. Não vá esquecer: eu não amo você. Você sabe: repetir as coisas em voz alta faz parte do meu tratamento.
Tudo isso é para ver se me convenço, se te esqueço, se não te amo.

obs1: de você, restou a gripe da chuva de semana passada para dizer que te amava pela última vez;

obs2: eu não amo você…

obs3: você ainda tem o meu telefone?

"
— Camila Costa. - trechos de nós.
"Os dedos contarão o tempo, um a um. A boca contará as histórias que fazem parte do nosso antes e depois. O sorriso contará a felicidade. As lágrimas contarão a saudade. É assim, cada parte minha irá contar um pouco das partes nossas que ficaram grudadas em mim. Contarão que você ligou semana passada e o nosso diálogo não passou de cinco minutos, você queria apenas as coisas que esqueceu, e não me incluiu nelas. O nosso silêncio, porém, será o único a contar o que nós dois estamos tentando deixar de lado: nada teve fim. Somos donos de vírgulas em sequência e tentamos fingir que são pontos finais. Estamos acabados, mas não sabemos acabar."
— Camila Costa. - trechos de nós. 
"Me guarde para a última página do livro. Conte todas as histórias desde o primeiro amor da infância até o a paixão adulta que não ia embora. Fale sobre as manias de dormir no lado esquerdo da cama, lembre-se do período tempestuoso quando quase não terminou a faculdade, fale das moças de saia que você encontrava todos finais de semana, as viagens de trem que você quis fazer sozinho, os períodos em que pensou estar enlouquecendo enquanto tirava foto de tudo com medo de perder a memória, as comidas que você se apaixonou dando voltas pelo mundo, os cheiros que deixaram saudade, os batons que ficaram marcados nas suas roupas, as histórias que os seus pais contavam e te envergonhavam, os cachorros que você teve e chorou quando se foram, o sonho de criança de ser piloto de avião, a sua fuga do amor quando acharam que não tinha coração, a mulher que te deixou marcas e literalmente te deixou, o melhor amigo que te traiu, a irmã que te consolou, as muitas mulheres que perderam o pescoço te vendo passar, os carros que você quis comprar, as cidades onde pretendia morar, os brinquedos de que sente falta e os ossos quebrados do futebol de toda semana. Conte a sua vida inteira e um pouco mais, se assim preferir. Pode contar todos os segredos que somente eu desvendei: os pesadelos à noite de quando seu pai morreu e o orgulho eterno de levar sua irmã caçula ao altar. Ah, conte também sobre essa cicatriz na mão esquerda que já escrevi sobre. Desvende-se ao mundo. Mas, por favor, por amor de Deus, me deixe ser o ponto final que pontua o seu livro."
— Camila Costa. - trechos de nós. 
"De repente, a gente se separou. Eu tinha ainda uma lista de planos escondida na gaveta. De vez em quando eu pegava e riscava dela algo que tivéssemos realizado. Você nunca soube dela, assim como nunca soube de como foi difícil dormir depois do nosso primeiro jantar ou de quantas vezes errei a hora achando que você, finalmente, me pediria em namoro, conheceria a minha família e me levaria até a sua. Havia uma porção de bobagens na lista também, coisas como conhecer a Tailândia contigo. Eu faço dessas coisas, mas foi estando com você que aprendi a não fazer. Parei, não toco mais naquela lista, não relembro os planos, não risco nada. Porque, de repente, meu querido, a gente se separou. E você saiu com cara de quem queria chorar, enquanto eu sai com cara de culpada, mas nem uma coisa e nem a outra nos justificavam. É como saber que o teatro de um “adeus” é sempre mais poético, apesar de nunca salvador. A lista ainda não vai para o lixo, tenho medo pegar ela em mãos e descobrir que tudo aquilo não terá graça sozinha ou com o próximo que arrombar essa porta, mas isso é tão improvável, eu sou tão inalcançável como você gostava de falar, mas tanto conseguiu alcançar. De repente, a gente encontra os pedaços pela cidade. Ou não. Ou sim. De repente… Depende."
— Camila Costa. - trechos de nós. 


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