absurditates
Porque desde nova eu sou antiga. Rayná, 19 anos, saxofonista/musicista.
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"Eu sei que sou pesada, triste, dramática, neurótica, louca, insatisfeita, mimada, carente. Mas você se esqueceu da minha maior qualidade: eu sou só. Eu era só aos cinco anos quando eu não entendia porra nenhuma do que estava acontecendo e corria para rezar no banho. A fumaça de cigarro tomando toda a casa enquanto meus pais decidiam absolutamente nada em longas discussões que sempre terminavam com a minha mãe jogada em algum canto tremendo e vomitando, e eu com a certeza de que ela morreria cedo. Hoje em dia ela sinaliza o tempo todo que pode morrer por falta de carinho, e eu não consigo dar a mínima. Eu era só pesando seis quilos a menos, quando o mundo inteiro queria que eu comesse pra não morrer, e eu querendo viver tanto que tinha medo de não conseguir, como tudo que sempre quero muito, e acabo fodendo logo pra não ter que viver com a ansiedade do desejo maior do que eu. Eu quase morri de tanto que queria viver. E eu tô quase acabando com o seu amor por mim, de tanto que eu quero que você me ame. Percebe? Louca. Louca e só, porque ninguém vai aguentar isso. Eu sempre estou só quando sou tomada por um susto longo e paralisador que dá vontade de me concentrar apenas em mim, e não ver nada e nem ninguém, por isso quis chorar só e escondida atrás da porta, como um rato que todo mundo tem nojo, que causa doenças, que tem um longo rabo deixando tudo entreaberto para trás, mas que no fundo só quer um pouco de queijo, como qualquer criança bonitinha. Carregar nossa alma, com tudo o que ela tem de bom, de mal e de incompreensível, é uma tarefa solitária. Eu sempre fui só querendo ter uma família grande, café da manhã, Natal, cachorro, e eu continuo só quando te vejo como minha família, mas você me deixa sozinha com duas ou três opções de suco para uma ou duas opções de pão. O mundo é cheio de opções sem você, mas todas elas me cheiram azedas e murchas demais. Eu hoje fui ao banheiro duzentas vezes para ficar longe do meu celular e do meu e-mail, ficar longe de todas as possibilidades da sua existência. Me olhei no espelho bem profundamente para enxergar minhas raízes e ganhar força, chorei algumas vezes, fiquei sentada no chão do banheiro, para ver se meu corpo esquentava um pouco ou porque estava mesmo me sentindo um lixo. O ar-condicionado hoje está insuportável, mas eu não acho que mude alguma coisa desligá-lo. Estar sozinha não muda nada, conheço bem esse estado e, de verdade, sei lidar com ele. O que me entristece, é ter visto em você o fim de uma história contada sempre com a mesma intensidade individual. Eu tinha visto na sua solidão uma excelente amiga para a minha solidão. Achei que elas pudessem sofrer juntas, enquanto a gente se divertia."
Tati Bernardi. (via procenio)
"Então me deixa ir embora, por favor. Faz frio aqui. Ontem eu fiz a besteira de me olhar no espelho. Estou ainda mais parecido com você. Deu vontade de chorar, mas eu lembrei subitamente o quanto eu odiava ver você chorar. Talvez a sua tristeza fosse a única do mundo que eu não achava bonita… Eu não entendia ainda. Nunca entendi ao certo porque suas lágrimas não desciam da cor dos seus olhos tão meus, mas você nunca gostou desse negócio de ceder seu corpo aos seus sentimentos. Nem um milímetro que fosse. Sua fortaleza, meu amor, ruiu. E a prova sou eu, fruto do teu maior acaso, criatura obsessiva por manter os olhos da mesma cor, exatamente porque eles não herdaram a tua vida. Só a tua partida, e isso são olhos descoloridos que não sorriem jamais e, por mais lágrimas que ousem escorrer, são olhos que jamais brilham. O espelho é um borrão fosco como foi todo o estado de coma que eu fiquei quando vi sua vitalidade escorrendo pelo ralo da pia feito caracóis (seus caracóis dourados, amor, que de tão reais não enfeitaram o seu funeral). É isso o que dá me olhar no espelho quando a morte é quem está sorrindo atrás de mim, deitada na minha cama azul piscina, que não é minha. Você tinha a mim. Você tinha o seu passado chorando bem na sua frente, o seu passado chorando porque não queria te ver. Eu reneguei você até o último minuto da minha vida, quando você não apertou mais a minha mão e eu deixei o cristal da minha infância cair no chão e quebrar. Eu odiei você porque não tinha forças pra lutar comigo e dizer: “Rapazinho, escute aqui. Se você é o meu passado, eu sou o seu futuro”. Você só me deixou ir, mas onde estou agora, senão perto do espelho, da cama, da morte, da vaga no estacionamento do prédio vazia? Eu estou perto do esquecimento, porque cobrindo o pontilhado da nossa história, descobri que te recriei sem os seus lenços da cabeça. Você é minha fantasia, minha ideologia, meu porta-retratos, minha janelinha no dente. Você é qualquer coisa que não seja essa tosse incessante e essa febre que me corroeu o amor. Você é qualquer coisa que não me faça morrer, então suma daqui. Suma daqui e ocupe o seu lugar do nada, porque eu não preciso de você. Eu já não sou mais o teu passado, não seja o meu amanhã. Dói demais não acreditar que eu vou te abraçar um dia. A nossa despedida foi só uma invalidez, mas eu nunca, nunca desisto de te curar. Deixa eu ir embora, meu canário da asa quebrada, por favor. Faz frio aqui. Na lápide onde você não está."
Cinzentos.  
"Eu sabia quando você disse o primeiro oi, que eu iria amar você."
The Beatles.   
"Gosto de você por que foi contigo que aprendi a fugir do mundo, a fugir de mim e das minhas loucuras. Encontrei as tuas loucuras e fui antes de mais nada, feliz.
Deve ter sido esse teu olhar, ou esse teu jeito de coçar a barba ou bagunçar o cabelo. Pode ter sido nesse teu sorriso que eu perco até a linha dessa frase só de lembrar. Pode ter sido teus quadros, teus pensamentos quase sempre não ditos, teu timbre de voz, tua risada. Acho que foi você. Pelo simples fato de não existir alguém igual a ti. E isso me desespera por que, por mais que não seja, é o que quero pra mim. É contigo que eu queria estar agora. No teu abraço, no teu beijo. É a tua barba, por que nenhuma outra jamais foi atraente. É o teu quarto cheio de telas malucas, fortes, te retratando e retratando várias outras coisas sentidas também. Eu queria saber uma infinidade de palavras para escrever aqui e assim, meu peito coração ficar intacto. Para que as lágrimas não escorressem. Para que enfim a tua dúvida se transformasse em amor.
Muito egoísmo da minha parte querer isso, eu sei. Coração não obedece ninguém, e o meu é prova viva disso. Mas é que, foram aquelas tardes lindas que fizeram isso comigo, todas aquelas tardes de pôr-do-sol juntos. Com teu abraço, teus beijos. Foi aquele peixinho que a gente pescou junto, o almoço que fizemos juntos, as noites que dormimos juntos, doses que bebemos juntos. Quero que você entenda que não tenho pra onde ir. Não tenho rumo. Não quero outro alguém. Não mais. E quero que saiba que estou aqui. Continuo aqui, mesmo você achando isso egoísmo demais da sua parte me deixar esperando, eu não me importo. Corta o cheiro verde e, paciência…"
Rayná - Extratos de um mini-relacionamento.
"Eu tento limpar o meu estoque de ar que sai aqui de dentro para que ele não seja tão pesado, entende? Eu não quero que respirem a minha poluição, porque a tristeza de cada um já é o bastante em si. Mas a gente é assim, não é? Meio inconsequente. Tranca o ar, mas respira o de todo mundo. Às vezes, até mais o dos outros do que o nosso próprio. Por isso engasga, tosse, molha os olhos. Por isso se perde daqui, dali, de si. Nessa perda eu sou boa, quase como na falta de ar. Não quero ser o lado ruim da força, a corda que arrebenta. Mas eu sou, ah, eu sou… Eu só sou. É por essas e outras que o ar quase não passa por mim. Tropeço quase sem força para caminhar, e é assim com todo mundo. Quando falta o ar, é porque a vida começou a sobrar naquele copinho d’água que teima em transbordar."
— Camila Costa. 
"Eu tento limpar o meu estoque de ar que sai aqui de dentro para que ele não seja tão pesado, entende? Eu não quero que respirem a minha poluição, porque a tristeza de cada um já é o bastante em si. Mas a gente é assim, não é? Meio inconsequente. Tranca o ar, mas respira o de todo mundo. Às vezes, até mais o dos outros do que o nosso próprio. Por isso engasga, tosse, molha os olhos. Por isso se perde daqui, dali, de si. Nessa perda eu sou boa, quase como na falta de ar. Não quero ser o lado ruim da força, a corda que arrebenta. Mas eu sou, ah, eu sou… Eu só sou. É por essas e outras que o ar quase não passa por mim. Tropeço quase sem força para caminhar, e é assim com todo mundo. Quando falta o ar, é porque a vida começou a sobrar naquele copinho d’água que teima em transbordar."
— Camila Costa. 
Nota sobre o dia:

não adianta tentar se afogar num recipiente sem água, baby. Vê se aprende. Ele é poça, você é mar. Ele é raso, você transborda.

"E você me olha com essa carinha banal de “me espera só mais um pouquinho”. Querendo me congelar enquanto você confere pela centésima vez se não tem mesmo nenhuma mulher melhor do que eu. E sempre volta."
Tati Bernardi.
"E eu quero muito. Muito. Porque você tem a voz mansinha e só fala coisa inteligente. E você é cínico sem ser maldoso. Mas não, não. Estou morrendo de vontade de ser eu, mas ser eu só tem me feito perder e perder. E eu quero ganhar. Só dessa vez. Chega. E eu quero me dar de bandeja pra você. Chega de fazer tudo errado. E eu te espio da janela, indo embora. E quero berrar o quanto gosto de você. E te pedir em namoro. E rasgar sua roupa. E dormir enroscada no seu cabelo."
Tati Bernardi. 
"Levei o teu sorriso comigo. Acuse-me de roubo, mande-me prender, grite e esperneie: o sorriso fica! Pode ir você, as roupas, as cartas e metade da casa, mas o sorriso não! Depois de tanto morar aqui e me virar a cabeça, passou a ser meu, uma propriedade que não devolvo e nem divido. Distribua qualquer outra coisa aos amores que viveres pela vida, mas o sorriso você não leva! Assinei com ele um contrato para a vida inteira, não adianta pagar fiança ou implorar. Ele me roubou e eu dei o troco. Somos ladrões com mil perdões. Será para sempre me lembrar de como era bom o teu sorriso me deixando pequena no meio da noite. E quando quiser sorrir, volte aqui, para dividir comigo eu lhe empresto ele."
— Camila Costa. - trechos de nós. 
"Talvez eu pudesse ter nos deixado apenas nos livros e nos meus sonhos, mas quis fazer-nos reais, quis ir além e tatear cada pedaço teu. Não senti o tempo sendo jogado fora: senti a vida acontecendo. Você tem o dom de fazer a vida acontecer, e me passou isso. Você diz que tudo perdeu-se, mas não há de ser nada, amanhã tudo volta. Você diz que a vida é uma merda, mas está feliz, porque o café da manhã com o meu sorriso deixa o mundo lindo. Você diz coisas que eu poderia achar que foram tiradas de poesias ou músicas, mas é tão natural que eu sei que sempre veio de você. Agora eu sei porque precisava nos tirar do livro e dos sonhos para a realidade: nem as suas projeções seriam melhores do que você real ao meu lado. E pelas ruas talvez digam que estamos perdidos, que o nosso olhar é alienado. Eu concordo! Atamos as mãos e vivemos longe, longe demais para sermos normais."
— Camila Costa. - trechos de nós. 
"Que a alegria começa na solidão e termina no amor, os poetas e músicos já haviam me contado. Que ter tido você ontem não era garantia de ter novamente hoje, eu já sabia. Mas me criei na esperança, sobrevivi nela, agarrei-me com todas as forças no “esperar por você”. E esperei. Vendo filmes melancólicos, lendo livros que você gostava, visitando cafés que você me levava e limpando a janela após a chuva para caso você passasse por aqui. E agora, a minha ilusão vive ancorada nos retratos que você deixou."
— Camila Costa. - trechos de nós. (via camilacosta)
"Não é que o choro fosse parte do combinado ou que eu tivesse a pretensão de te sensibilizar. Nada disso. Acredito que, com ou sem choro, se você quisesse ir, nada impediria. Acredito que o amor é de apelos, com certeza, mas eu sei que você não iria me querer de joelhos te pedindo para ficar. Então, fiquei eu e o meu coração pedindo assim, de pé, chorosos e com pouca capacidade de fala. Porque a gente nunca sabe falar quando o coração dói. Não haveria uma palavra sequer tão exata para o meu medo de você soltar a minha mão. Eu chorei. Mais de uma vez. O choro me deixou de cama, deu fortes tapas no meu rosto e me lembrou demais de você. Eu chorei porque a gente nunca sabe o que fazer quando fica sem o outro."
— Camila Costa. - trechos de nós. 


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